Prometi pra minha filha que partiu que nunca ia faltar amor pra ele.
Minha filha morreu no dia em que o Leonardo nasceu. O pai dele segurou o menino uma vez, viu o rostinho em carne viva e disse que não ia dar conta. Foi embora e não voltou.
Sobrei eu. A avó. Naquele dia eu fiz uma promessa em voz alta, pra ela que tinha acabado de partir: enquanto eu respirar, pra esse menino nunca vai faltar amor.
O colo que ele mais pede é o que mais dói nele.
Esse é o meu Léozinho. Tem 8 mesinhos. A doença dele se chama dermatite atópica severa — em palavras simples, é como se a pele dele fosse alérgica só por existir.
Encostar arde. Vestir cria ferida. E o colo, a única coisa que um bebê sabe pedir, é justamente o que machuca ele.
De madrugada eu prendo a mãozinha dele numa luva.
Essa foi a primeira semana em que eu não consegui manter o tratamento que ele precisa, e já estão sendo os piores dias da vida do meu neto.
A coceira não deixa ele dormir. Eu prendo a mãozinha dele numa luva pra ele não rasgar a própria pele enquanto dorme. É o cuidado que eu alcanço, enquanto o tratamento de verdade não chega.
No banho, mesmo eu lavando só com água, as feridas abrem.
Por mais devagar que eu lave, só com água, as feridas ficam cada vez mais abertas. Tem dia que ele fica tão fraquinho que não tem nem força pra chorar.
É a hora que eu mais temo no dia inteiro. Devia ser o momento de alívio dele, e virou o mais dolorido.
O que mais dói não é a doença. É saber que tem cura.
O médico foi claro comigo: bebê que faz o tratamento cedo, na maioria das vezes fica totalmente curado, e com o tempo essas feridas todas somem.
É a única esperança que o meu Léozinho tem de viver uma infância normal. Poder correr, poder brincar, poder dar um abraço sem criar ferida. A cura tá do meu lado — e eu não alcanço sozinha.